O Presidente da República defende que o desporto escolar deve deixar de ser encarado apenas como espaço de competição e passar a funcionar como uma verdadeira plataforma nacional de descoberta e formação de talentos. Na abertura da XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares, em Inhambane, Daniel Chapo assumiu o compromisso de reforçar o investimento nas infra-estruturas, professores e treinadores e lançou um desafio: nenhum talento moçambicano deve perder-se por falta de oportunidade.
Quando as delegações das 11 províncias desfilaram, este sábado, diante das bancadas na cidade da Maxixe, Daniel Chapo disse ter visto muito mais do que equipas que chegaram a Inhambane para disputar medalhas. Para o Presidente da República, naquele desfile estava uma representação do presente e, sobretudo, do futuro do país. Jovens de diferentes origens, línguas e culturas, reunidos pelo desporto, transformaram a abertura da XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares numa demonstração daquilo que o Chefe do Estado considera um dos maiores valores que a competição pode produzir que é a unidade nacional.
É nesta dimensão que Chapo pretende colocar os Jogos Escolares. Não apenas como uma competição onde, no final, haverá vencedores, derrotados e medalhas, mas como um espaço onde a escola, o desporto e a construção da cidadania se cruzam. No seu discurso de inaugural, o Presidente sustentou que competir não deve significar dividir e apontou os jogos como um lugar onde sonhos, talentos e esperanças se encontram.
A mensagem ganha particular significado num festival que junta jovens provenientes de todo o país. “Um estudante de Cabo Delgado pode competir com outro de Maputo, enquanto jovens de Niassa, Gaza ou de qualquer outra província partilham os mesmos campos, alojamentos e experiências”. Para Chapo, é precisamente neste encontro que as diferenças geográficas, culturais, étnicas, religiosas e linguísticas deixam de constituir fronteiras e passam a expressar a diversidade de uma mesma nação.
Mas foi na ligação entre educação e desporto que o discurso presidencial ganhou uma das suas mensagens mais fortes.
Daniel Chapo defendeu que a escola não deve preparar os jovens apenas para os exames, mas também para a vida. E é nesse processo que se coloca o desporto escolar como instrumento para formar carácter, descobrir capacidades e transmitir valores. Para o Presidente, “o campo desportivo é uma extensão da sala de aulas”, onde os estudantes aprendem disciplina, persistência, trabalho colectivo e respeito pelo adversário.
A vitória, nesta perspectiva, deixa de ser medida apenas pelo número de medalhas. Chapo considera que o verdadeiro campeão é também aquele que consegue ultrapassar as próprias limitações, manter humildade quando vence e dignidade quando perde.
A mensagem presidencial procura, desta forma, deslocar parte do peso dos resultados para aquilo que os Jogos Escolares conseguem deixar na formação dos estudantes. Porque, terminada a competição, poucos seguirão necessariamente uma carreira profissional no desporto, mas todos regressarão às escolas e comunidades onde os valores adquiridos durante a competição poderão ser colocados à prova.
Há, entretanto, uma outra expectativa depositada nos campos de Inhambane e Maxixe: descobrir quem poderá representar Moçambique no futuro.
Chapo acredita que entre os estudantes que hoje disputam os Jogos Escolares podem estar futuros campeões nacionais, africanos e mundiais e jovens que, um dia, poderão carregar a bandeira moçambicana nos Jogos Africanos, Commonwealth, CPLP, campeonatos mundiais e até nos Jogos Olímpicos.
A ambição, contudo, coloca também uma responsabilidade sobre o Estado. Descobrir talento é apenas o primeiro passo. Mantê-lo, desenvolvê-lo e conduzi-lo até à alta competição exige uma estrutura capaz de acompanhar o jovem depois de terminado o festival.
É precisamente aí que o Presidente reconhece um dos grandes desafios do desporto nacional.
Chapo defendeu a criação de uma “verdadeira ponte” entre escolas, clubes, federações e selecções nacionais, para impedir que jovens promissores desapareçam do radar depois das competições escolares. A responsabilidade, advertiu, não pertence exclusivamente ao Estado, pois deve envolver também a sociedade e o sector privado.
A questão é particularmente relevante porque, em muitos casos, o talento emerge longe dos grandes centros urbanos e em famílias sem capacidade financeira para sustentar uma carreira desportiva. É por isso que Chapo comparou o talento a uma semente que pode nascer em qualquer distrito, escola ou família, mas que não floresce sem oportunidade, orientação, disciplina e trabalho.
O desafio lançado pelo Presidente transforma, assim, os Jogos Escolares numa espécie de primeira peneira de um sistema que terá de provar capacidade para acompanhar aquilo que descobre.
Para que essa ponte funcione, Daniel Chapo assumiu compromissos.
O Governo promete continuar a investir na melhoria das infra-estruturas desportivas, valorização dos professores de Educação Física, formação de treinadores, massificação da prática desportiva e identificação precoce de talentos. O Presidente defendeu ainda que os investimentos feitos para a realização do festival não devem perder utilidade quando as delegações regressarem às respectivas províncias.
Chapo quer que as infra-estruturas continuem ao serviço dos estudantes, que os atletas identificados sejam acompanhados e que professores e treinadores consigam multiplicar o conhecimento adquirido durante a preparação e realização da competição. Em síntese, o festival deve terminar, mas o investimento não pode terminar com ele.
Essa poderá ser, aliás, uma das principais medidas do sucesso desta edição. Para além da organização e das medalhas, será preciso perceber, nos próximos anos, quantos dos talentos descobertos em Inhambane conseguirão efectivamente fazer a transição entre o desporto escolar, os clubes, as federações e, eventualmente, as selecções nacionais.
O discurso de Chapo colocou ainda uma forte carga de unidade nacional sobre o festival.
O Presidente descreveu o desporto como uma das maiores escolas de patriotismo, precisamente porque permite que adversários disputem intensamente uma partida e, terminado o jogo, continuem a reconhecer-se como membros da mesma comunidade nacional. E quando um atleta veste as cores de Moçambique, acrescentou, deixa de competir exclusivamente por si e passa a carregar as expectativas de todo um país.
Na leitura do Chefe do Estado, os mesmos princípios exigidos num campo, disciplina, trabalho em equipa, respeito pelas regras e perseverança, são necessários para acelerar o desenvolvimento de Moçambique. O desporto, sustentou, não deve produzir apenas atletas, mas cidadãos capazes de participar na construção de uma sociedade mais coesa e de uma economia mais forte.
Foi também neste quadro que Chapo defendeu igualdade de oportunidades para rapazes e raparigas e inclusão de crianças com deficiência na prática desportiva, argumentando que uma sociedade inclusiva começa na própria escola.
Aos estudantes, deixou talvez a parte mais directa da mensagem: que a condição em que começam a caminhada não determine até onde podem chegar. Pediu-lhes dedicação aos estudos, disciplina nos treinos, respeito pelas famílias, professores e colegas, além de honestidade, responsabilidade, competência, integridade e patriotismo.
No final, Daniel Chapo não se limitou às palavras. Entrou em campo e participou numa partida de futebol, num gesto que marcou simbolicamente o arranque da XVI edição do Festival Nacional dos Jogos Desportivos Escolares.
Nos próximos dias, Inhambane e Maxixe terão vencedores, derrotados e novos campeões. As medalhas encontrarão os seus donos e, como reconheceu o próprio Presidente, os campos voltarão depois ao silêncio.
O verdadeiro teste começará depois, que é saber se os talentos que hoje brilham nos campos de Inhambane e Maxixe, continuarão a ser vistos quando as luzes do Festival se apagarem.