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O País – A verdade como notícia

No princípio foi assim…

Às vezes, o pensamento do princípio desenha a vida que define o presente e anuncia o futuro. Há começos que não são apenas pontos de partida, são sementes lançadas no território invisível da existência, onde o tempo as transforma em memória, destino e possibilidade.

No princípio foi assim. Caminhávamos longas distâncias e atravessávamos, com o pensamento, o deserto sem camelos para nos sustentar e diluir o cansaço. No princípio, havia caminhos que pareciam não terminar e horizontes que se afastavam à medida que deles nos aproximávamos. As noites tornavam-se mais longas, não porque o céu tivesse perdido as estrelas, mas porque a imaginação media, em silêncio, a distância que separava o presente e o habitat do futuro.

No princípio, era assim: a vida acenava ao nosso lado, mas era preciso possuir o olho da mente para reconhecer o gesto e decifrar as letras gregas que desenhavam, nos sinais do mundo, as primeiras indicações do caminho do futuro. Nem todo aquele que olha vê; nem todo aquele que vê compreende. O princípio ensinava que a existência é também uma linguagem e que viver consiste, muitas vezes, em aprender a interpretar os seus sinais.

As mentes, no princípio, amavam as letras. E as letras, quando encontravam o pensamento, formavam palavras, as palavras formavam frases, e as frases começavam a desenhar as cores da presença do futuro. O conhecimento era uma espécie de ponte sobre o desconhecido, construída não com pedras, mas com perguntas, sonhos e palavras.

A vida sorria com dentes de leite e, nesse sorriso inaugural, havia uma promessa de eternidade. As letras transformavam-se em música, a música transformava-se em memória, e a memória atravessava gerações e alegrava a humanidade. Era como se o mundo tivesse pernas leves para dançar a melodia soprada no saxofone do futuro.

No princípio, foi como se o Divino tivesse desenhado o mundo com uma única intenção: unir a vida à natureza e criar um som capaz de estabelecer harmonia entre os seres, entre as sociedades e entre o homem e o próprio universo. A terra era uma grande casa sem fronteiras; o céu, o seu tecto; o mar, a sua memória; e o homem, apenas um hóspede encarregado de preservar aquilo que não lhe pertencia inteiramente.

No princípio, não se desenhou o fim. Imaginou-se a alegria eterna sobre a terra. O horizonte não anunciava despedidas, e o amanhã parecia ser apenas a continuação natural da felicidade. Ainda não sabíamos que toda presença carrega, silenciosamente, a possibilidade da ausência.

Que todo nascimento contém, escondida, a ideia da partida, E que o tempo, enquanto nos oferece a vida, também começa a retirar-nos dela.

No princípio, o mundo talvez não conhecesse o termo fé, porque a própria vida parecia suficiente para alimentar a esperança. Havia flores para os olhos, água para a sede, música para animar a alma e braços para acolher a solidão. A existência oferecia, sem grandes discursos, aquilo de que o coração necessitava para continuar acreditando no amanhã.

Mas o tempo mudou a gramática da humanidade. O mundo tornou-se mais egoísta, e aquilo que antes parecia abundante começou a conhecer limites. A oferta diminuiu, as necessidades multiplicaram-se e algumas delas passaram a viver escondidas dentro do homem, como desejos que a própria sociedade ensinou a reconhecer. Foi então que a humanidade precisou de inventar palavras para suportar aquilo que já não podia receber. Entre essas palavras nasceu a fé.

A fé tornou-se uma espécie de janela aberta quando as portas da realidade pareciam fechadas. Não eliminava o sofrimento, mas ensinava o homem a suportá-lo. Não satisfazia todas as necessidades, mas oferecia a alma uma razão para continuar caminhando quando os pés já

não encontravam estrada. No princípio, a vida não oferecia medo. O medo surgiu depois, quando o homem descobriu que podia perder aquilo que amava, quando percebeu que a abundância podia transformar-se em escassez e que o amanhã não obedecia inteiramente aos desejos humanos. O medo passou a habitar a consciência como uma sombra, não apenas para limitar as exigências, mas também para lembrar que toda liberdade convive com a fragilidade.

E foi talvez dessa fragilidade que nasceu uma outra palavra: esperança. Os termos esperança, medo e fé tornaram-se parentes. A esperança nasce no peito humano quando a realidade já não consegue satisfazer plenamente a necessidade reconhecida, mas o espírito se recusa a aceitar que o impossível seja a última palavra. A esperança não alimenta a viagem no deserto quando falta maná, nem devolve imediatamente aquilo que o tempo levou, porém, alimenta a capacidade humana de continuar caminhando e procurando encontrar o sonho prometido.

No princípio, todos tinham, ou, pelo menos, acreditavam que o mundo oferecia o suficiente. Ali não habitava o ódio, porque ainda não se tinha inventado a necessidade de possuir o que pertencia ao outro. No princípio, talvez nem existisse esperança, porque a vida oferecia o buquê com rosas que expressavam felicidade. Quando a felicidade estava presente, não era necessário esperar por ela.

O mar oferecia ao mundo a água do bem comum. As ondas não perguntavam quem era rico ou pobre, quem vinha do Sul ou do Norte, quem falava esta ou aquela língua. A água chegava à margem e oferecia-se. O sol nascia sem escolher os seus destinatários. A chuva caía sobre telhados diferentes, como se o céu desconhecesse as fronteiras que mais tarde seriam desenhadas pelos homens.

No princípio, a natureza não conhecia passaportes. As árvores não perguntavam quem merecia a sua sombra. Os rios não cobravam tributo pela passagem da água. As montanhas não escolhiam os olhos que poderiam contemplá-las. E o vento atravessava os territórios sem pedir autorização, ensinando à humanidade uma das primeiras lições da liberdade: aquilo que é essencial não deveria pertencer exclusivamente a ninguém.

No princípio, o céu sorria. Espalhava bondade e desejos de satisfação no coração da terra. E a terra agradecia com abraços, devolvia flores à primavera, frutos ao outono, sementes ao futuro e vida àqueles que nela depositavam as mãos. Havia, entre o céu e a terra, uma espécie de pacto silencioso. O céu oferecia a lua, as estrelas e o sol, e a terra recebia com braços de alegria. A terra por sua vez oferecia e o homem recebia com a alma de satisfação. E o homem, por fim, deveria devolver com um sorriso de agradecimento. Talvez seja esta a mais antiga filosofia da existência: receber sem destruir, possuir sem excluir, crescer sem diminuir o outro e partir deixando o mundo um pouco mais habitável do que o encontramos.

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