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O País – A verdade como notícia

TEMOS MAIS AUTORES DE REFERÊNCIA DO QUE LIVROS DE REFERÊNCIA

Moçambique completou, há um ano, meio século desde a sua ascensão à categoria de país independente. A nível literário, podemos congratular-nos pelo surgimento de múltiplas casas dedicadas à divulgação, promoção e estímulo do gosto pela criação literária e pelo exercício da sua produção. Desde a criação da Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1982, assistimos, na esfera privada, a um considerável crescimento institucional, com o surgimento de novos actores, entre editoras e fundações, com o devido destaque para a Fundação Fernando Leite Couto, a Casa do Professor, em Maputo, e diversos círculos de leitura que actuam em diferentes cidades do país.

Para não cairmos na armadilha de confundir esta proliferação de instituições de divulgação literária com um desenvolvimento da literatura moçambicana, propomo-nos antes procurar compreender até que ponto este salto quantitativo tem, de facto, contribuído para a saúde da nossa literatura.

Para responder a esta questão, assalta-nos de imediato a sensação de que, nestes primeiros vinte e cinco anos do presente século, registámos um inegável crescimento, mesmo a julgar pela expansão quantitativa da actividade literária, marcada pelo surgimento de mais editoras, pela publicação de mais autores e mais livros e por iniciativas de formação de mais leitores.

Por outro lado, quanto ao desenvolvimento da literatura, entendida, neste caso, como a sua evolução qualitativa, aferível, na nossa perspectiva, pelo surgimento de mais obras de referência, de uma crítica mais consistente e de leitores mais exigentes, não nos arriscaremos a chegar a qualquer conclusão com a mesma facilidade.

No nosso raciocínio, em busca de formular uma resposta equilibrada e intelectualmente honesta, o maior desafio obriga-nos a avaliar em que medida essa expansão quantitativa da actividade literária se traduz, hoje, num efectivo desenvolvimento da literatura moçambicana.

Tomemos, como primeiro indicador, o surgimento de mais obras de referência. Atentos ao facto de, já desde o século passado, a prosa moçambicana apresentar, de forma indiscutível, livros como Nós Matámos o Cão-Tinhoso , Ualalapi , Terra Sonâmbula, bem como Niketche, respectivamente de Luís Bernardo Honwana, Ungulani Ba Ka Khosa, Mia Couto e Paulina Chiziane, tomaremos essas obras como referência ao compulsarmos artigos sobre a literatura moçambicana publicados em revistas especializadas.

Diferenças à parte, são essas as obras mais traduzidas, integrando programas universitários, servindo de objecto de teses e figurando, repetidamente, em estudos comparados. Quanto à possibilidade do surgimento de uma crítica mais consistente, avaliaremos as tendências dos artigos publicados por estudiosos das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Já quanto ao surgimento de leitores mais exigentes, analisaremos, com particular atenção ao caso, o desempenho dos clubes de leitura.

Compulsados os artigos escritos por especialistas em Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, publicados ao longo dos últimos vinte e cinco anos, portanto, já no século XXI , verificamos que, entre os estudos consultados, apenas um único livro é citado, de forma inequívoca e sustentada, como integrante dessa distinta galeria da prosa moçambicana: o romance Saga d’Ouro, no artigo O Insólito Ficcional na Narrativa Moçambicana Contemporânea: Leituras de Saga d’Ouro, de Aurélio Furdela, do académico brasileiro João Olinto, que afirma: “Decorre que, embora em períodos anteriores a prosa tenha apresentado obras que contavam sobre a realidade do — à época, colónia portuguesa — território moçambicano, a exemplo de Godido, de João Dias, ou Nós Matámos o Cão-Tinhoso, de Honwana (TRINDADE JR., 2019), eram experimentações esporádicas, em detrimento da vocação dos moçambicanos para serem uma «pátria de poetas» (NOA, 2007, p. 284). Assim, a prosa passa por décadas até atingir o amadurecimento de um Ba Ka Khosa, um Mia Couto e, acrescentamos aqui, um Aurélio Furdela.”

Dada a insofismável coincidência, talvez seja necessário assegurar, aos leitores mais imparciais, que esta reflexão se alicerça em estudos disponíveis e acessíveis a qualquer interessado, sem, contudo, vedar a possibilidade de correcções baseadas em publicações do mesmo nível que eventualmente nos tenham escapado, sobretudo quando nos sentimos circunstanciados a concordar com o professor Salvador Tiago, citado por Aníbal Aleluia, segundo o qual .”há dois tipos de escritores: os que têm qualidade e os que têm amizade.”

Ao referirmo-nos a escritores com qualidade literária, torna-se inevitável analisar a hipótese do surgimento de uma crítica mais consistente ao longo dos primeiros vinte e cinco anos do presente século.  Citado por Francisco Noa, Amândio César, editor da revista Vértice, afirmava:

“Agarrados a uma mentalidade de literatos pequeno-burgueses […], os críticos metropolitanos têm vindo a desprezar, por sistema, todos aqueles que, em África, na Ásia ou na Oceânia, realizam a sua obra.”

Com o advento da independência nacional de Moçambique, não restam dúvidas de que o sistema conheceu continuidade, tendo apenas mudado os actores. Passou, então, a integrar uma elite académica contemporânea das gerações literárias reveladas nas décadas de 1980 e 1990. Pois, é notória a tentativa de reproduzir esse mesmo desprezo sistemático em relação à maioria dos escritores surgidos a partir do ano 2000, sobretudo os da geração Oásis. Quando essa crítica parece prestar alguma atenção aos autores publicados, fá-lo quase sempre em relação a um restrito grupo de mosqueteiros complacentes, empenhados em parecer bons discípulos diante dos seus idolatrados mestres, que os conduzem, como se os levassem pela coleira, às montras da literatura em Portugal ou no Brasil.

No actual mundo globalizado, esse sistema continua resguardado numa espécie de redoma protectora dos seus apaniguados. Não restam dúvidas de que, aos nomes maiores da literatura moçambicana posterior ao 25 de Junho, Mia Couto, com Terra Sonâmbula; Ungulani Ba Ka Khosa, com Ualalapi; Paulina Chiziane, com Niketche; Suleimane Cassamo, com O Regresso do Morto; Lília Momplé, com Ninguém Matou Suhura; e Eduardo White, com País de Mim, começam já a juntar-se outros autores com livros igualmente dignos de referência.

Alguém consegue imaginar uma literatura moçambicana pulsante sem estes títulos? Um livro não conquista esse estatuto pelo simples facto de o seu autor ter sido secretário-geral da AEMO ou antigo ministro.

Gilberto Gil foi Ministro da Cultura do Brasil e, ao cessar funções, continuou ligado às actividades culturais, criando o Instituto Gilberto Gil, vocacionado para a preservação e valorização do seu legado artístico por ter criado, essa é genuína atitude de um artista/escritor que tem obra de referência  e, consequentemente, também se torna referencia. 

Entretanto, no meio cultural moçambicano, esse sistema estimula uma prática especial aos autores de referência, que depois de exercer determinados cargos, seja como ministro, reitor, etc., regressem à casa literária onde iniciaram a sua carreira, não necessariamente para prestigiar a instituição, contribuir para a sua valorização ou transmitir a experiência acumulada, mas para reintegrar os seus órgãos dirigentes, através de uma alteração estatutária concebida para permitir essa reinserção.  Tal procedimento acaba por representar um golpe estatutário sobre os jovens titulares dos órgãos eleitos. E essa  reintegração não deixa de ser contranatura, na medida em que permite que trajectórias que não alcançaram o amadurecimento esperado dentro de um determinado ciclo regressem a uma fase inicial, para nascer, crescer e voltar a tentar amadurecer já  envelhecidos,   mesmo que para isso se desvirtue o próprio espírito dos estatutos da agremiação para  criar uma estrutura de poder destinadas a acomodar esses autores de referencia,  neste caso um conselho composto por antigos secretários-gerais, dotado de capacidade de intervenção no quotidiano da instituição, sem que esteja prevista a participação  dos actuais titulares dos cargos democraticamente eleitos. 

Essa trapalhada deriva de um sistema de produção e protecção de autores de referência que dificilmente sobreviveriam fora do mesmo. Perpetua-se-lhes a influência, através da qual actuam  como autênticos modjeros  literários, a funcionar  como  em portais de afirmação para uma juventude arrebanhada, no seio da qual procuram decidir quem deve, ou não, ascender na carreira literária.

Nestas circunstâncias, tendemos a desconfiar de todo aquele cuja obra apenas desperta a atenção de críticos com quem almoça aos fins-de-semana, ou conquista prémios literários atribuídos por júris integrados por pessoas com quem celebra a distinção logo após a divulgação dos resultados. São formas claras de “doping literário”.

Todavia, o trabalho da crítica literária produzida fora de portas, dedicado ao estudo da literatura de forma desinteressada, sem que o crítico tenha privado com o autor nas já conhecidas jantaradas de mendicidade da atenção da crítica, consegue, por vezes, conferir verdadeiro mérito a livros de escritores revelados a partir do ano 2000.  No intervalo geracional a que chamámos Oásis, encontramos um exemplo paradigmático. Sobre Utsi para Hienas em Sete Andamentos, de Sangare Okapi, a estudiosa e poeta Ana Mafalda Leite não hesita em afirmar: “Ouso afirmar que este livro, bem como o percurso anterior dos livros de Sangare Okapi, lhe concedem a maturidade de ser um dos poetas mais originalmente representativos na integração e recomposição magistral de diferentes vozes e épocas da poesia moçambicana.”

Longe de qualquer tentativa de negar o passado, ou de desvalorizar outras obras aqui omitidas, a nossa análise procura, de forma deliberadamente fria, identificar indicadores objectivos de excelência das obras que lograram captar atenção crítica. Mas, essa matéria será desenvolvida nos próximos artigos, para não corrermos o risco de resvalar para o simplismo daqueles que, quando aparentam falar da literatura moçambicana, se limitam a arrolar nomes de autores e títulos de livros.

O nosso objecto de reflexão são os livros de referência da literatura moçambicana, e não os autores de referência, pois ambas as categorias nem sempre coincidem. Um autor pode gozar de enorme prestígio institucional sem que a sua obra alcance idêntico reconhecimento estético.

Admitindo alguma margem de erro, entendemos que o verdadeiro estatuto de obra de referência deve aferir-se pela conjugação de diversos factores: o reconhecimento consistente da crítica especializada, as sucessivas reedições, as traduções internacionais e a recorrente atenção que a obra desperta nas universidades, como objecto de monografias, dissertações, teses e outros estudos académicos.

A literatura moçambicana, ao longo destes últimos vinte e cinco anos, parece ter sido contaminada por uma espécie de ócio intelectual que favoreceu o florescimento de uma crítica tendenciosa e do mabequismo de que todos os escritores são iguais, e que pensar diferente é perigoso para a união no seio dos escritores,  passando a ser um perigo socialmente mortal, com o devido  diagnostico de esquizofrenia para quem se mostrar inconformado, tudo para que essa crítica estagnada no século passado continue a remeter deliberadamente para a invisibilidade uma geração inteira de escritores. Como é possível admitir que, desde o início do século XXI, Moçambique não tenha produzido obras destinadas a integrar o património maior da sua literatura?

Essa aparente estagnação soa artificial, no meio de uma reprodução de uma camada de leitores que delega a sua capacidade de avaliar o livro a um sistema de validação literária que deixou de servir a estética para servir interesses corporativos. A principal associação do sector parece aperfeiçoar-se, de forma crescente, como mecanismo de preservação da influência de uma elite consagrada nas décadas de 1980 e 1990, promovendo, por excepção, novos autores que permanecem cegamente alinhados com os seus antigos mestres, enquanto a verdadeira renovação estética acaba por depender, em larga medida, do olhar de uma crítica exógena e internacional.

Nestes vinte e cinco anos, a crítica contribuiu mais para sustentar autores de referência do que livros de referência. O leitor deixou, muitas vezes, de comentar o livro para comentar o autor. Já não se diz que determinada obra é admirável; diz-se que o escritor é “muito porreiro”. Este desvio condiciona negativamente a formação de leitores mais exigentes. Basta olhar para o funcionamento de muitos clubes de leitura.

Em numerosos casos, esses clubes transformaram-se em espaços onde grupos de jovens se reúnem para exibir capas de livros e tirar fotografias com o escritor convidado. Ler é, por excelência, um acto que reclama recolhimento e concentração. Dificilmente se realiza em profundidade nas condições proporcionadas por encontros que deveriam privilegiar a discussão de livros já lidos de antemão, conferir primazia ao livros e não a simples celebração da figura do autor. Nisso tornou-se comum ouvir afirmações como: “Estou a ler Marcelo Panguana”, “Estou a ler Aldino Muianga”, ou “Estou a ler Juvenal Bucuane”, quando o centro da conversa deveria ser a obra e não apenas o nome do escritor. Temos, por isso, tantos autores de referência que, por vezes, parecem superar em número os próprios livros de referência. Por fim, os apresentadores e prefaciadores de livros, salvo algumas excepções, parecem cada vez mais preocupados em apresentar o autor do que a obra, limitando-se preferindo recordar episódios pessoais, lugares onde conheceram o escritor ou memórias partilhadas, em detrimento de uma introdução do potencial leitor ao mundo do livro que apresentam.

Somos assim tentados a concluir que a proliferação de instituições editoriais, algumas dirigidas por editores sem preparação adequada, a persistência de associações conduzidas por dirigentes avessos à diferença e sedentos de lisonja, a multiplicação de clubes de leitura por vezes orientados sem o indispensável rigor intelectual e a manutenção de uma crítica literária marcada pelo amiguismo constituíram, ao longo destes últimos vinte e cinco anos, factores que contribuíram decisivamente para a invisibilidade de livros relevantes de uma geração. Obras como País do Medo, de Ruy Ligeiro, e outras que permanecem oclusas aos olhos da crítica contemporânea, talvez venham a ser recuperadas pela História da Literatura Moçambicana, quando esta lhes fizer a justiça que o presente ainda lhes recusa. (Continua.)

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