O Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME) aprovou medidas de carácter urgente para assegurar o abastecimento de combustíveis líquidos em todo o território nacional, numa altura em que se registam constrangimentos na distribuição e crescente pressão nos principais centros urbanos.
Face às dificuldades no abastecimento de combustíveis registadas nos últimos dias, o Governo decidiu avançar com medidas excepcionais para garantir a reposição rápida do produto, num contexto marcado por pressões internas e factores externos que agravam a vulnerabilidade energética do País.
Num comunicado de imprensa, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, através da Direcção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis revela que, no âmbito das acções de fiscalização, constatou haver dificuldades de alguns operadores retalhistas na reposição de produtos petrolíferos.
De acordo com a instituição, os constrangimentos estão ligados ao processo de aquisição junto dos operadores-distribuidores, com os quais existem vínculos contratuais, o que tem limitado a capacidade de resposta dos postos de abastecimento. Situações semelhantes já foram, em momentos anteriores, associadas a falhas logísticas e dificuldades de acesso à moeda de importação por parte dos distribuidores.
Para inverter o cenário, o Ministério dos Recursos Minerais e Energia autorizou, por despacho, que os operadores retalhistas passem a adquirir combustíveis junto de qualquer distribuidor devidamente licenciado e com disponibilidade de produto, independentemente dos contratos em vigor. A medida, que surge num momento de crise de combustíveis diversos, visa, entre outros, acelerar o reabastecimento e garantir maior fluidez no sistema de distribuição.
“O objectivo é garantir que todos os postos disponham de combustível, enquanto se restabelecem as condições normais de distribuição”, refere a nota do Ministério.
Importa lembrar que, recentemente, o Presidente da República assegurou que, por possuir portos, Moçambique conseguiria ter reservas de combustíveis até ao fim do mês de Abril e princípio do mês de Março. Porém, tudo indica que a crise bateu à porta mais cedo.
Segundo a nota de imprensa do Ministério dos Recursos Minerais e Energia, a medida vigorará até que os operadores-distribuidores recuperem a capacidade de abastecimento regular, sendo parte de um conjunto de acções para estabilizar o mercado.
Entretanto, a Direcção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis apelou à calma da população, desencorajando práticas de açambarcamento e constituição de reservas domésticas, bem como o abastecimento acima do estritamente necessário.
Por sua vez, especialistas alertam que reacções de pânico tendem a agravar artificialmente a escassez de combustíveis, ao provocar picos súbitos de procura num sistema sob pressão.
No terreno, a situação continua a gerar pressão, sobretudo na Cidade de Maputo, onde vários postos registam ruptura de stock. Nos poucos pontos ainda operacionais, longas filas de viaturas tornaram-se frequentes, originando tensão entre automobilistas e alguns incidentes, incluindo tentativas de furar filas.
Refira-se que, na última terça-feira, o Executivo reconheceu pela primeira vez a escassez de combustíveis no País, apontando factores externos como uma das principais causas, com destaque para a instabilidade no Médio Oriente.
O Governo moçambicano garante que continua a monitorizar a situação no terreno e reafirma o compromisso com a transparência e a normalização do abastecimento nacional, num cenário em que a estabilidade do sector energético se mantém como um dos principais desafios para a economia mundial.
Transportadores ameaçam paralisar actividade devido à escassez de combustíveis
Os transportadores da região metropolitana de Maputo ameaçam paralisar o transporte, caso continue a escassez de combustíveis. Na sequência, o Governo autorizou os operadores retalhistas a adquirirem combustíveis junto de qualquer distribuidor, como forma de garantir maior disponibilidade do produto no País.
A “ameaça” deve-se ao facto de, nesta quinta-feira, pelo terceiro dia consecutivo, os munícipes de Maputo e Matola terem continuado a viver um verdadeiro teste de paciência e resiliência, devido à falta de combustível, sobretudo a gasolina.
Entre as longas filas e incertezas estavam os operadores de transporte semicolectivo de passageiros, que contaram que muitas vezes gastam o pouco combustível que têm à procura de mais. Quando amanhece, em vez de transportar passageiros, põem-se em chamadas para saber que postos têm reservas.
“Abasteci ontem. Hoje de manhã esta é a primeira viagem que faço, então desde de manhã estou aqui a formar fila. Não está a ser fácil para nós, inclusive os passageiros estão a passar mal, porque há carros que param na via, então gostaria que o Estado tentasse ver uma solução”, disse o transportador, que se identificou como Vizinho de Deus, da Rota Anjo Voador–Chamissava, em KaTembe.
A situação afecta toda a zona metropolitana do Grande Maputo, como testemunhou o presidente da Federação Moçambicana dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO).
“Uma das bombas da vila de Boane tinha gasolina, uma bicha enorme. De Boane, vim apanhar outra bicha de gasolina apenas nas bombas da Matola-Rio e, depois, esta aqui. São mais de 10 bombas, mais de 10 postos de abastecimento que eu passei que não tem nem gasolina nem gasóleo”, disse Castigo Nhamane, presidente da FEMATRO.
Por conta desse cenário, Nhamane afirma que se caminha para uma crise grave de transporte na região.
“Nós estamos quase para paralisar os carros, não por vontade, porque não temos combustível. Algumas bombas, quando têm combustível, dão mil meticais, imaginemos quantas voltas um minibus de 15 lugares, não vou falar de autocarro, de 20 ou 30 lugares, quantas voltas vai dar com gasóleo de mil meticais, que são apenas 12 litros? E depois os 12 litros ele gasta na bicha para ver se consegue abastecer mais mil meticais”, declarou.
Devido à situação, várias pessoas tiveram de caminhar, por falta de transporte.
“Há muitos passageiros que estão a caminhar hoje em dia, porque não há combustível, não temos como tirar os carros. Fazemos transporte público quando não há combustível, ou podemos trabalhar, ficamos com dinheiro no carro, mas combustível para trabalhar não há. Então, vale mais pararmos, abastecermos e trabalharmos.”

