Num tempo em que a verdade se torna cada vez mais desconfortável e a aparência de estabilidade vale mais do que a realidade, instala-se silenciosamente uma cultura perigosa e, em Moçambique, ela já se tornou norma. A substituição da coragem pela conveniência deixou de ser um desvio ocasional para se tornar prática recorrente, tanto nas instituições públicas como nas privadas. Mais grave ainda, esta lógica não nasce apenas nos espaços de poder; começa no núcleo mais íntimo da sociedade, a família, e reproduz-se, com naturalidade inquietante em todos os níveis da vida social.
Entre o elogio fácil e a omissão deliberada, constrói-se um ambiente onde a crítica é vista como traição e a honestidade, como risco. Nos partidos políticos, esta realidade atinge níveis particularmente críticos, moldando comportamentos, distorcendo decisões e afastando, progressivamente, a liderança da verdade. É neste contexto que se impõe uma reflexão urgente: até que ponto estamos dispostos a sacrificar a verdade em nome da proximidade ao poder?
Há um problema que evitamos nomear, mas que todos reconhecemos: a cultura do elogio fácil, da protecção acrítica e do silêncio conveniente. Durante muito tempo, chamámos a isso disciplina. Depois chamámos lealdade. Hoje, em muitos casos, não passa de escovismo político. E sejamos honestos: já nem estamos apenas a escovar em alguns casos, estamos a queimar as costas dos próprios dirigentes, criando uma bolha onde só entra o que agrada e nunca o que corrige.
A recente intervenção do secretário-geral da Frelimo, Chakil Aboobakar, trouxe para o centro do debate algo que a sociedade já vinha dizendo há muito tempo: o problema do escovismo, a cultura da adulação e o afastamento da verdade. Muitos se mostram surpreendidos com este posicionamento, mas quem conhece Chakil Aboobakar reconhece nesta intervenção uma linha de continuidade, uma postura de verticalidade, frontalidade e compromisso com a verdade que lhe é característica. Não é uma ruptura. É coerência. E é precisamente essa coerência que incomoda.
Há, no entanto, uma contradição que não pode ser ignorada. Muitos dos que hoje reproduzem, ecoam e (re)postam este discurso são os mesmos que, ontem, atacaram quem ousou dizer a verdade. São os mesmos que desacreditaram vozes críticas, construíram narrativas de deslealdade, isolaram camaradas que analisaram os factos com rigor e recusaram alinhar na lógica de escovar dirigentes. Hoje repetem o discurso; ontem combateram quem o dizia. E, mais do que isso, os que sempre viveram da escova, de afagar as costas dos dirigentes, estão hoje visivelmente incomodados. Estão aborrecidos, inquietos pelo estilo de liderança transformadora empreendida pela actual liderança da Frelimo, e já começaram a reagir através de ataques subtis e directos, da construção de narrativas distorcidas e, em alguns casos, instrumentalizando a própria mídia para desacreditar posições firmes e incómodas. Quando a verdade entra no debate, quem vive da ilusão sente-se ameaçado.
O problema é que, quando tudo parece bem nos relatórios, quando todas as intervenções são elogiosas e quando ninguém levanta problemas reais, não estamos a governar melhor, mas a governar às cegas. A realidade não desaparece por não ser dita; acumula-se, cresce e, mais cedo ou mais tarde, cobra o seu preço. O dirigente que só ouve aplausos não está protegido, pelo contrário, está exposto. E é aqui que se impõe uma pergunta incontornável: quando escondemos problemas, suavizamos falhas e evitamos dizer a verdade. Estamos a proteger quem? O dirigente ou a nossa própria posição? Porque, na prática, neste acto de agradar permanentemente, de escovar e de limpar as costas do dirigente, estamos a prejudicar o nosso próprio povo. Problemas não resolvidos transformam-se em crises, decisões mal informadas tornam-se erros estruturais e o distanciamento entre liderança e realidade aumenta. E quem paga o preço não é quem escova, é o cidadão.
Não nos enganemos: a integridade tem preço e a dignidade tem preço. E, dentro das dinâmicas internas, esse preço é, muitas vezes, alto. Quem decide dizer a verdade, analisar factos com rigor, denunciar corrupção, expor esquemas de bloqueio às acções de renovação do Partido e recusar o elogio fácil torna-se, frequentemente, alvo de grupos organizados de escovistas, verdadeiras redes informais que vivem da proximidade ao poder e da manutenção do status quo. Esses grupos constroem narrativas com linguagem como “esse não está alinhado, não é/não parece nosso”, rotulam camaradas comprometidos como desleais e transformam a verdade em ameaça. Esses grupos são verdadeiras máquinas trituradoras e de assassinato de carácter. Ser íntegro, hoje, muitas vezes significa ser atacado. Mas é exactamente essa integridade que salva o partido.
É por isso que é preciso dizê-lo com toda a clareza: o maior perigo para a Frelimo hoje não é a crítica, é a adulação. São perigosos os dirigentes que gostam de ser escovados e promovem essa cultura, e são igualmente perigosos os militantes que vivem para agradar, em vez de servir o povo e o partido. Porque esses escamoteiam a realidade, apresentam situações críticas como controladas, produzem e veiculam narrativas e relatórios triunfalistas onde existem problemas sérios e criam uma falsa sensação de normalidade. E, quando a liderança decide com base nessa ilusão, o erro torna-se inevitável.
A Direcção da Frelimo nunca esteve numa fase tão exigente como esta. O País enfrenta desafios reais e o partido enfrenta desafios de renovação, restauração da credibilidade e ligação com o povo. Este não é um momento para escovas; é um momento para a verdade. O que se exige hoje é gente que analisa factos com objectividade e rigor, denuncia corrupção sem medo, expõe esquemas que bloqueiam a renovação do partido e alerta para movimentações prematuras e desestabilizadoras, como tentativas encobertas de pré-candidaturas à Presidência da República num contexto em que a legislatura mal começou. Ignorar estes sinais não é estratégia, é risco político.
É urgente redefinir o conceito de lealdade. Lealdade não é dizer sempre sim, não é evitar desconforto e não é proteger a imagem a qualquer custo. Lealdade é dizer a verdade a tempo, é corrigir antes que seja tarde e é ter coragem quando é mais fácil ficar calado. Um partido forte não é aquele onde todos concordam; é aquele onde há espaço para o contraditório responsável.
O Comité Central não é um ritual vazio mas um momento de verdade política, de avaliação honesta e de correcção de rumo. É o momento de perguntar, sem medo: onde estamos a falhar, onde estamos desligados do povo e o que precisa de ser corrigido com urgência. Evitar estas perguntas é adiar problemas e não resolvê-los.
No fim, a escolha é simples, mas decisiva: continuar na cultura do aplauso ou assumir uma cultura de verdade, responsabilidade e coragem. Escovar agrada no curto prazo, mas é a verdade que salva no longo prazo. E o maior acto de lealdade que podemos ter hoje não é elogiar, é garantir que o partido e o País não se afastam da realidade.
Neste contexto, o pensamento político do Presidente da República, assente na ideia de Renovar Moçambique resgatando a liberdade, justiça e prosperidade para todos os moçambicanos, impõe à Frelimo desafios ainda mais exigentes e inadiáveis. Lançar os alicerces da independência económica não é compatível com uma cultura de complacência, de silêncio conveniente ou de reprodução de práticas que já demonstraram os seus limites. Fazer diferente para obter resultados diferentes exige ruptura com o escovismo, coragem para enfrentar interesses instalados e capacidade de dizer a verdade mesmo quando ela incomoda. Impõe um partido mais ousado, mais próximo do povo, mais rigoroso na análise e mais firme na acção. Porque renovar não é apenas mudar discursos, é transformar práticas, mentalidades e comportamentos. E esse é, talvez, o maior teste político desta geração.
