“O ser humano perdeu a razão” é a última asserção feita por Assa Matusse na canção “Só Eu Fiquei?”. A partir desta afirmação, a intérprete constrói uma crítica à sociedade contemporânea, marcada pela irracionalidade e pela superficialidade. Como ela própria denuncia:
“Gostam de imitar o sicrano
Que ostenta vida falsa no status”
O que mostra que vivemos num tempo em que a aparência substitui a essência e em que o valor é medido pela validação alheia.
A canção expõe ainda um conjunto de comportamentos que revelam um profundo desequilíbrio social, tais como decisões impulsivas, desespero por atenção, banalização do crime e corrupção.
O retrato torna-se mais sombrio quando aborda a violência de género:
“Macho não aceita ser deixado
Se ela não volta, pega machado
Sem piedade o pescoço dela decapitar”
evidenciando uma masculinidade assente na posse e no controlo, que, em casos extremos, culmina no feminicídio.
Num plano mais amplo, a artista convoca também realidades concretas e dolorosas, como a instabilidade no país, e atreve-se a dizer que não sabe quem mata em Cabo Delgado..
“Funtsi loko u vutisa vodlaya”
E isso sugere um mundo onde a insegurança e a morte se tornaram difíceis de compreender, quanto mais de explicar.
Se o ser humano perdeu a razão, então perdeu também o limite e, quando se perde o limite, perde-se o medo das consequências. É nesse ponto que o indivíduo se torna verdadeiramente perigoso, quando já não tem nada a preservar, nem valores nem empatia.
A canção move-se, assim, entre mudança e estagnação, pois tudo parece transformar-se à volta da intérprete, mas permanece a sensação de que essa transformação não é progresso, mas desvio. Sendo assim, ela revela-se fiel a princípios que a sociedade proclama apenas nos discursos, frequentemente evocados em debates sobre a condição humana, em parlamentos, mas raramente vividos na prática.
Como sugere Achille Mbembe, vivemos num tempo em que a vida humana se tornou descartável, o que reforça a ideia de que a perda da razão não é apenas individual, mas colectiva, manifestando-se na normalização da violência, da exploração e da indiferença.
Em suma, no fundo, a pergunta que Assa Matusse coloca não é apenas sobre ela, mas sobre cada um de nós, se o mundo parece ter perdido a razão, resta-nos decidir se ficamos apenas a assistir ou se ousamos manter a humanidade intacta dentro de nós.
Só eu e quantos ficámos?
