Os economistas Octávio Manhique e Gananzito Lino defendem que o processo de reconstrução das zonas afectadas pelas cheias em Moçambique deve iniciar-se pela reposição urgente das principais vias de acesso, em particular a Estrada Nacional Número Um (EN1), considerada a espinha dorsal da circulação de pessoas e mercadorias no País.
Falando durante o espaço de debate no programa O País Económico, da STV, os economistas foram unânimes em afirmar que as cheias encontraram o País em contrapé, uma vez que ainda estava no processo de recuperação pós-manifestações eleitorais.
Segundo Octávio Manhique, a destruição provocada pelas cheias ocorre num momento especialmente sensível para a economia nacional, que ainda se encontrava em processo de retoma. “A primeira situação que tem de ser atendida, porque é urgente e sufoca, sobretudo, as economias das províncias de Gaza e Inhambane, são exactamente os cortes que se verificaram na estrada”, afirmou, sublinhando que a reposição desta infra-estrutura básica é uma condição indispensável para restaurar o mínimo de normalidade económica.
O economista explicou que a interrupção da EN1 contribui directamente para a escassez de produtos e para a subida especulativa de preços. “Quando se sabe que o coco não vem de Inhambane, no dia seguinte o preço dispara”, exemplificou, defendendo que a reposição da transitabilidade reduz a tentação de especulação, ao assegurar a continuidade da cadeia de abastecimento.
Para além das estradas, Octávio Manhique considera prioritário o apoio às populações afectadas, muitas das quais permanecem em centros de acomodação, depois de perderem casas, bens e meios de subsistência. Defende que o processo de reassentamento deve ser acompanhado de medidas que permitam às famílias retomarem actividades produtivas, sobretudo agrícolas, em zonas mais seguras. “Há pequenas coisas que podem ir sendo feitas para apoiar estas pessoas a reerguerem-se”, frisou.
No médio e longo prazo, o economista alerta para a necessidade de o País assumir que as crises climáticas vieram para ficar, exigindo investimentos estruturais em prevenção, controlo de cheias e ordenamento do território. Reconhecendo as limitações do Tesouro Público e a reduzida margem de endividamento, aponta o apoio externo como a via mais realista para financiar grande parte da recuperação, através de parceiros bilaterais, multilaterais e organismos como o Banco Mundial e o FMI.
Por seu turno, o economista Gananzito Lino defendeu que a reconstrução deve ser orientada por um plano estratégico de prevenção e resposta a desastres, incluindo a eventual criação de um fundo específico para estes cenários. Para Lino, as cheias destruíram simultaneamente o tecido social e produtivo, afectando infra-estruturas públicas, hospitais, escolas, unidades do sector privado e cerca de 105 mil hectares de culturas.
“Temos uma grande espinha dorsal que liga os centros de produção e os centros de comercialização, que são as infra-estruturas rodoviárias”, afirmou, acrescentando que também as linhas ferroviárias e outros sistemas de transporte devem ser repostos com urgência. O economista defende, igualmente, um mapeamento do sector privado afectado e a criação de pacotes de apoio e financiamento para permitir a retoma da actividade económica e evitar o agravamento do desemprego e da inflação.
Gananzito Lino sublinhou ainda que, apesar de o Orçamento do Estado para 2026 já ter sido aprovado, a situação extraordinária criada pelas cheias obriga a um reajustamento das prioridades de despesa e à mobilização de apoios externos. Contudo, alerta que qualquer recurso mobilizado deve ser gerido com rigor: “É preciso valorizar cada centavo que for alocado para a recuperação dessas emergências”.
As posições convergentes dos dois economistas apontam para uma abordagem faseada da reconstrução: começar pela reposição das vias de acesso e da mobilidade, avançar para o apoio humanitário e reassentamento, e, paralelamente, estruturar medidas de prevenção e resiliência climática que reduzam a vulnerabilidade do País a futuros desastres.

