Cara amiga Jessie Nyaka Ndawana,
Recebi a tua carta, na qual colocas inúmeras questões sobre os desafios que hoje se colocam a nós enquanto Nação. Li-a com atenção e detenho-me, em particular, nos seis desafios que destacas e sobre os quais solicitas o meu comentário: (i) amar a Deus acima de tudo; (ii) não se afastar de Deus; (iii) deixar de murmurar; (iv) ser sério; (v) orar mais; e (vi) santificar mais.
Estes seis desafios vão muito além da esfera pessoal ou espiritual. Eles convocam-nos para uma reflexão profunda sobre a responsabilidade colectiva que temos neste momento histórico: a responsabilidade de um recomeço com propósito.
Esta reflexão é necessária porque Moçambique vive um tempo de encruzilhada. Persistir nos mesmos caminhos, com as mesmas atitudes e os mesmos vícios, conduzir-nos-á inevitavelmente aos mesmos resultados. Reflectir com honestidade permite-nos identificar o que falhou, corrigir rotas e alinhar consciências. Os ganhos dessa reflexão são imensos: para o país, significa clareza de rumo, coesão social e progresso sustentável. Para cada um de nós, significa sentido de pertença, dignidade e a certeza de que somos parte activa da solução e não meros espectadores do declínio.
Moçambique precisa de reencontrar o seu propósito nacional. E esse propósito deve ser claro, mobilizador e mensurável: transformar Moçambique num país de desenvolvimento médio, com dignidade, oportunidades e justiça social. Não se trata de um slogan político, mas de uma ambição nacional que exige mudança de mentalidades, atitudes e práticas. É lugar comum afirmar que, independentemente da filiação político-ideológica, todos ambicionamos viver num país de desenvolvimento médio. Contudo, isso não se alcança por magia, nem por feitiçaria, muito menos por curandeiros ou falsos profetas. O desenvolvimento constrói-se com ciência, sabedoria, trabalho árduo, disciplina e propósito colectivo.
Nenhum país alcança desenvolvimento sustentável sem governação ética. Ética, não como retórica vazia, mas como prática diária. Uma governação que define metas claras, estabelece métricas objectivas, distribui responsabilidades e exige resultados. Por isso, conforta-me saber que o Presidente da República avançou com a assinatura de contratos de desempenho com os ministros, sinalizando uma possível ruptura com a cultura da irresponsabilidade e da impunidade.
Em contrapartida, há atitudes que nos atrasam enquanto Nação: manifestações violentas que culminam na destruição de bens públicos e privados, empobrecendo ainda mais quem já pouco tem; a construção deliberada de narrativas negativas sobre o país, que retraem a vinda de turistas e investidores; o bota-abaixismo crónico e o comportamento de caranguejo — tão bem retratado por Stewart Sukuma — em que, em vez de nos ajudarmos a subir, puxamo-nos uns aos outros para baixo.
Contudo, é um erro grave pensar que a ética é apenas responsabilidade do Governo. A ética começa no cidadão, um cidadão sério, probo e comprometido com o bem comum; um cidadão que deixa de murmurar passivamente nas esquinas e nas redes sociais e passa a intervir activamente na vida da sua comunidade; que fiscaliza a gestão da escola do bairro, que exige transparência no posto de saúde, que propõe soluções práticas para os problemas locais; um cidadão que participa nas associações comunitárias, que vota de forma consciente, que constrói pontes de diálogo em vez de muros de ressentimento.
Amar a Deus acima de tudo e não se afastar D’Ele implica viver valores como a verdade, a justiça, a humildade e o serviço ao próximo. Deixar de murmurar é abandonar a cultura da queixa estéril e assumir a coragem da acção. Ser sério é respeitar o bem público como se fosse nosso, porque, de facto, é nosso. Orar mais e santificar mais não é fugir da realidade, mas ganhar força moral para transformá-la.
Lamentavelmente, o país assiste à resistência mascarada de sectores e pessoas à mudança. Há quem não se consiga adaptar à dinâmica actual e aos tempos que vivemos e continue a recorrer às mesmas técnicas e ao mesmo modus operandi da “velha senhora”: assassinato de carácter, dividir para reinar, criar muros artificiais entre “nós” e “eles”, inventar fantasmas e justificar-se com o argumento de que “sempre fizemos assim”. Esta resistência é um dos maiores entraves ao progresso.
Este recomeço com propósito exige também uma visão económica clara e corajosa. Lançar as bases para a independência económica, promover a diversificação da economia e fazer diferente para alcançar resultados diferentes não são opções; são imperativos nacionais. Continuar a repetir os mesmos métodos produzirá, inevitavelmente, os mesmos resultados.
Neste ponto, vale a pena olhar, sem complexos nem submissões, para experiências internacionais que ousaram romper com o passado. Um exemplo ilustrativo é o de Mohammed bin Salman Al Saud (MBS), Príncipe herdeiro e Primeiro-Ministro da Arábia Saudita. Representando uma nova geração de liderança, MBS compreendeu que a dependência excessiva do petróleo comprometia o futuro do seu país. Com a Saudi Vision 2030, lançou uma estratégia clara, com metas definidas, prazos rigorosos e forte aposta na diversificação económica, no investimento estrangeiro, no turismo, na tecnologia, na indústria e em grandes projectos estruturantes. Independentemente das leituras políticas que se façam, o essencial é reconhecer que a transformação acontece quando há visão, coragem para romper com o passado e capacidade de execução.
Moçambique não precisa de copiar modelos, mas precisa de aprender com experiências bem-sucedidas. Uma abordagem estratégica a países como a Arábia Saudita pode fortalecer a nossa própria estratégia de diversificação económica, atrair investimento estruturante e acelerar o desenvolvimento de sectores-chave como o turismo, a energia e as infra-estruturas. Contudo, só se aprende com mentalidade aberta, disruptiva e com compromisso genuíno com a Pátria. Quem verdadeiramente ama Moçambique sabe que os velhos métodos já não servem. Os resultados que hoje temos são produto desses métodos. Eles trouxeram-nos até onde podiam, mas já não respondem aos desafios actuais. Compreender isto é ser patriota. Definitivamente, o caminho é fazer diferente para alcançar resultados diferentes.
O grande desafio de Moçambique não é apenas económico ou institucional; é moral. É alinhar fé, ética, cidadania e governação num mesmo propósito nacional. É restaurar a confiança entre o Estado e o cidadão, entre o vizinho e o vizinho, entre o discurso e a prática. Sem esta base moral, qualquer plano económico será frágil e qualquer reforma institucional será superficial. Este desafio moral exige introspecção, coragem para dizer verdades incómodas e disposição para mudar comportamentos enraizados.
Recomeçar com propósito é assumir que cada cidadão tem um papel insubstituível na construção do país que desejamos. O futuro de Moçambique não será obra de milagres, mas do carácter das suas lideranças e da consciência activa do seu povo.
Este é o debate que precisamos de fazer com coragem, verdade e com propósito.
Beijinho,
Dedé
