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ASTROI denuncia protecção ao transporte ilegal em Inhambane

As estradas de Inhambane deixaram de ser apenas caminhos de ligação entre distritos e comunidades. Para muitas famílias, tornaram-se corredores de incerteza, lugares onde a rotina se quebra com o som dos travões e a notícia de mais uma tragédia. Num cenário em que os acidentes de viação se multiplicam e a insegurança se instala como norma, cresce também o clamor contra aquilo que muitos consideram ser uma das raízes do problema: o transporte ilegal.

É neste ambiente de tensão e perda que a Associação dos Transportadores Rodoviários de Inhambane (ASTROI) quebra o silêncio. Pela primeira vez em tom público e directo, a agremiação aponta o dedo aos operadores clandestinos e acusa as autoridades de fecharem os olhos à sua actuação. Na perspectiva da ASTROI, o problema não é apenas a existência de viaturas fora do sistema — é a tolerância institucional que as protege e as mantém nas estradas sem controlo.

Para os transportadores organizados, esta permissividade mina o esforço de quem cumpre regras, paga impostos e submete as viaturas a inspecções regulares. “Não estamos todos a jogar no mesmo campo”, resume um membro da associação, que pede anonimato. Enquanto uns operam à margem da lei, outros acumulam obrigações e custos, esperando que a legalidade se traduza em justiça. Mas, segundo a ASTROI, essa justiça tarda — e, quando não chega, transforma-se em revolta.

Os números oficiais reforçam a gravidade do quadro. Em apenas nove meses, Inhambane registou 61 acidentes de viação, segundo dados das autoridades. A ASTROI contrapõe com os seus próprios registos: nos últimos três anos, 25 sinistros envolveram viaturas pertencentes aos seus associados. Para a direcção da associação, esta diferença sugere que grande parte dos acidentes ocorre fora do circuito legal. “É simples: quem não obedece às regras, não respeita limites, nem horários, nem condições técnicas”, argumentam.

O presidente da agremiação, Abdul Razak, traça um retrato claro da tensão instalada nas estradas. Segundo ele, as regras impostas aos operadores legais, como tempos de permanência obrigatória nas terminais e horários de saída, visam travar as correrias e reduzir riscos. “Quando entram viaturas independentes, tudo se desorganiza. Instala-se uma competição selvagem: vale tudo por passageiros”, descreve. “Na estrada começa a verdadeira selva do transporte, onde o lucro fala mais alto do que a vida.”

Razak denuncia ainda o que chama de “intocabilidade” de algumas viaturas ilegais. “Sabemos muitas vezes quem são os donos, mas nada acontece. Queremos leis iguais para todos. Se eu errar, sou punido. Quem está fora da lei, que se legalize ou seja retirado da estrada. Não pode haver privilégios”, defende, visivelmente indignado.

Para além dos acidentes, a associação alerta para outro efeito perverso: a asfixia financeira dos operadores legais. O transporte irregular retira passageiros sem contribuir para impostos, não garante seguros, não investe em manutenção e não respeita horários. O resultado é um mercado distorcido, onde quem cumpre perde e quem viola ganha. “É uma concorrência desleal que nos empurra para o abismo”, lamenta um transportador de longa data.

A degradação das vias agrava o cenário. Estradas em más condições, sinalização deficiente e fiscalização rarefeita criam o ambiente perfeito para o caos. Mas, para a ASTROI, nenhuma estrada mata sozinha. “O que mata é a soma da negligência, da impunidade e da pressa por dinheiro”, dizem.

Na Assembleia Geral realizada este fim-de-semana, a agremiação aprovou resoluções duras. Entre elas, o apelo ao reforço da fiscalização, auditorias à actuação das autoridades no controlo rodoviário e a criação de mecanismos efectivos para formalizar operadores ilegais. “Não queremos exclusão. Queremos organização”, sublinha a associação.

A ASTROI defende ainda que o Estado precisa assumir um papel mais activo não apenas na punição, mas na integração dos operadores informais, oferecendo caminhos reais para a legalização. “É melhor um transportador regularizado do que um clandestino na estrada”, resume Abdul Razak.

Entretanto, enquanto se discute responsabilidades, vidas continuam a perder-se. Passageiros entram em viaturas sem saber se chegarão ao destino, famílias despedem-se pela manhã sem a certeza do reencontro à noite. Inhambane vive sob a sombra da próxima tragédia.

Num contexto assim, a denúncia da ASTROI soa como um aviso e uma convocatória: sem autoridade firme, sem lei igual para todos e sem coragem para enfrentar o problema, o número de vítimas só tende a crescer. E quando a estrada continuar a matar, será tarde demais para fingir surpresa.

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