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Estaremos a tentar desfazer um neofalantismo imposto?

A precariedade da educação leva-nos a afirmar, muitas vezes de forma simplista, que “há jovens que não falam as suas línguas nativas. Eles são uma vergonha!”. Mas será essa uma análise justa?

Fiz parte de uma geração que cresceu num período em que falar línguas moçambicanas na escola era não apenas desencorajado, mas expressamente proibido e até motivo de insulto e castigos. Para aqueles cuja língua materna era o cinyungwe, aprender qualquer matéria se tornava um desafio gigantesco, pois o ensino era exclusivamente em português. Eu, por outro lado, tive o privilégio de ter o português como língua materna e, por isso, nunca enfrentei barreiras linguísticas na escola. Se não compreendia algo, sabia que a dificuldade não era linguística.

Até há pouco tempo, essa realidade era considerada normal. Afinal, há pessoas que chegaram aos 50 anos sem jamais serem fluentes nas suas línguas nativas.

Poderemos considerá-las neofalantes? Não sei. Para o serem, seria necessário que tivessem abandonado voluntariamente a sua língua materna em prol de outra, atingindo, nessa nova língua, um domínio oral e escrito considerável. Contudo, o que se verifica é que muitos moçambicanos não chegam a ser fluentes nem em português nem nas suas línguas nativas, resultado directo de uma realidade que, por décadas, fragilizou e marginalizou as línguas africanas, retardando sua aceitação, padronização e valorização.

O cenário actual é ainda mais crítico quando compreendemos que essa supressão linguística foi reforçada pela infame “lei do assimilado” do regime colonial português. Esta legislação promovia a ideia de que as línguas africanas eram destituídas de valor e que apenas a proficiência em português permitiria aos moçambicanos alguma vantagem. Ser fluente em português tornava-se um passaporte para determinadas funções no Estado, para a participação em cerimónias oficiais e para a ascensão a uma elite que, muitas vezes sem se dar conta, operava a favor do regime colonial. Até à queda desse regime, as nossas línguas já eram amplamente marginalizadas, consideradas indignas, apelidadas de “línguas de cão”. Essa barreira ideológica demorou a ser quebrada, e apenas nas últimas duas décadas começaram a surgir políticas linguísticas voltadas para a sua valorização.

A necessidade de introduzir as línguas moçambicanas no sistema de ensino tornou-se evidente, mas a forma como esse processo foi conduzido gerou estranheza e resistência. Recordo-me de 2007, quando uma brigada visitou a escola primária onde eu estudava para recrutar alunos interessados em aprender cinyungwe. A adesão foi mínima. Para a maioria, parecia ilógico aprender formalmente uma língua que já falava e, para mim, que só dominava o português, parecia inútil estudar uma língua que a sociedade ainda estigmatizava. Em qualquer dos casos, não se viam vantagens. A falta de uma explicação clara sobre a importância dessa mudança fez com que o projecto fosse recebido com desinteresse e desconfiança. Esse preconceito linguístico persiste até hoje.

O reflexo desse histórico de marginalização é evidente: durante muito tempo, as elevadas taxas de reprovação escolar coincidiram com a alta percentagem de alunos não fluentes em português. Esse factor levou professores a adoptarem estratégias para equilibrar as notas no final do ano, mascarando uma realidade preocupante. Contrastando com essa situação, no período imediatamente após a independência, o saber era valorizado acima da origem ou da idade. Muitos moçambicanos foram nomeados para cargos e funções importantes, pelo conhecimento e experiência que possuíam e, acredito, só depois pelo domínio do português.

A reflexão impõe-se: estaremos, agora, a tentar reverter um processo que não começou connosco? Ou estaremos apenas a tentar sobreviver às cicatrizes de um passado linguístico imposto?

Neofalantismo e a importância do cinyungwe 

Quando cheguei à oitava classe (2008), a restrição de falar as nossas línguas na escola já não era tão rígida. Muitos colegas meus eram fluentes em cinyungwe, e foi então que, por iniciativa própria, decidi começar a falar a minha língua. Esse momento marcou uma mudança significativa na minha relação com o idioma e com a minha identidade cultural.

Durante muito tempo, a escola representou um espaço onde a língua portuguesa era a norma, enquanto as línguas locais eram desincentivadas. Esse fenómeno não é exclusivo de Moçambique; ocorre em diversos contextos onde uma língua oficial, muitas vezes herdada do colonialismo, ocupa uma posição de prestígio em detrimento das línguas indígenas. No entanto, ao ver os meus colegas expressando-se naturalmente em cinyungwe, percebi que havia um espaço para retomar minha língua de herança. 

Não me interessa muito se esse processo de reapropriação da língua pode ser descrito como um caso de neofalantismo, um termo usado para designar aqueles que, apesar de não terem aprendido uma língua desde a infância ou não a terem usado activamente por algum período, passam a adoptá-la como meio de comunicação no dia-a-dia. Para mim, essa transição foi tanto um desafio quanto um acto de resistência. No início, enfrentei dificuldades para encontrar as palavras certas e formular frases com fluidez, mas, com o tempo, fui ganhando confiança e desenvolvendo um sentimento de pertencimento mais profundo.

Falar cinyungwe não era apenas uma questão linguística, mas também uma forma de me reconectar com a minha cultura e com a minha comunidade. Era um reencontro com as histórias, expressões e sabedorias que fazem parte do meu povo. A língua carrega em si a memória colectiva, os valores e a cosmovisão de um grupo, e resgatá-la é um passo essencial para fortalecer a identidade cultural.

Actualmente, as línguas moçambicanas ainda enfrentam desafios no reconhecimento e valorização dentro da sociedade. Embora haja políticas linguísticas que busquem promover o ensino e o uso das línguas locais, ainda há um longo caminho a percorrer para que o cinyungwe e outras línguas moçambicanas tenham o espaço que merecem. Ser um neofalante, nesse contexto, não é apenas uma escolha pessoal, mas um acto político e social. 

Acredito que a valorização das línguas locais deve ser uma missão colectiva. O cinyungwe, assim como o changana, o macua, o sena e tantas outras línguas faladas em Moçambique, são parte fundamental do nosso património cultural. 

Cada vez que escolhemos falar, aprender e ensinar as nossas línguas, estamos contribuindo para a sua preservação e continuidade para as futuras gerações.

O meu percurso como neofalante da minha própria língua foi uma jornada de descoberta e empoderamento. Espero que mais jovens sintam-se encorajados a abraçar as suas línguas maternas e perceber que nelas há uma riqueza inestimável.

A língua não é apenas um meio de comunicação, mas também uma afirmação de quem somos e de onde viemos.

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